A biografia Einstein: sua vida, seu universo. Escrita por Walter Isaacson e publicada no Brasil em 2007 pela Companhia das Letras é uma leitura agradável e envolvente. O livro chegou com todo mérito a número 1 na lista de mais vendidos do New York Times. De forma magistral o autor expõe e desmistifica a vida e a personalidade de um dos maiores gênios da humanidade.
Talvez aqueles que não sejam íntimos da trajetória do cientista se surpreendam com diferenças marcantes em relação a sua imagem tida pelo senso comum, por exemplo, o clássico zero em matemática que, na verdade, nunca existiu. Uma dessas questões é a sua relação com a fé. As frases "religiosas" de Einstein percorreram o mundo e são usadas por muitos religiosos. Algumas das mais famosas são:
"Sem a religião a ciência é capenga; sem a ciência a religião é cega".
"Sou um descrente profundamente religioso. Isso é, de certa forma, um novo tipo de religião."
"Deus é sutil, mas não é malicioso".
"Deus não joga dados".
"Ter a sensação de que por trás de tudo que pode ser vivido há alguma coisa que nossa mente não consegue captar, e cujas belezas e sublimidade só nos atingem indiretamente, na forma de um débil reflexo, isso é religiosidade. Nesse sentido, sou religioso".
Essas frases parecem sustentar uma posição religiosa do cientista, porém, estão muito distantes de sua opinião. Elas são tão fortes e estão tão impregnadas no imaginário popular que é difícil afirmar o ateísmo de Einstein, mesmo tendo ele o defendido publicamente inúmeras vezes.
Einstein sabia que suas palavras estavam sendo mal compreendidas e isso o incomodava. Então ele tentou esclarecer seu pensamento sobre Deus, como nas citações abaixo:
"É claro que era mentira o que você leu sobre minhas convicções religiosas, uma mentira que está sendo sistematicamente repetida. Não acredito num Deus pessoal e nunca neguei isso, e sim o manifestei claramente. Se há algo em mim que possa ser chamado de religioso, é a admiração ilimitada pela estrutura do mundo, do modo como nossa ciência é capaz de revelar".
"A ideia de um Deus pessoal me é bastante estranha, e me parece até ingênua."
No entanto, suas frases "contra" uma posição de crença religiosa não foram tão divulgadas como as aparentemente religiosas e muitos entusiastas religiosos continuaram a repeti-las fora do contexto ou sem compreender o que ele entendia por religião, criando assim uma imagem distante da real.
Já os religiosos mais sérios entenderam muito bem a mensagem do cientista e estava claro que não jogavam no mesmo time. Isso ocasionou uma enorme quantidade de críticas ao ateísmo de Einstein. Como as seguintes:
"É triste ver um homem que descende da raça do Velho Testamento e de seus ensinamentos negar a grande tradição dessa raça".
"Não há nenhum outro Deus que não um Deus pessoal […]"
"Einstein não sabe do que está falando. […] Alguns homens acham que só porque atingiram um alto nível de especialidade em determinada área são qualificados para manifestar suas opiniões em todas".
Outras críticas foram mais duras, indicando que ele era maligno por querer destruir a fé dos outros e houve até quem afirmasse que Hitler tinha alguma razão.
Mas afinal, como podemos entender as frases tidas como religiosas de Einstein e conciliá-las com sua descrença sobre a existência de um Deus pessoal. Afinal, o que Einstein entendia por religião?
Afirmar que Einstein era ateu não é o ideal, pois há um termo mais específico para sua posição sobre religião. Mais adequado seria afirmar que ele era panteísta. Vamos então entender o que isso significa.
Existem teístas, deístas e panteístas. Mas qual a diferença entre eles?
Os teístas acreditam numa inteligência sobrenatural que criou tudo que existe e que ainda cuida de sua criação, estando envolvida com as questões humanas. Essa posição é a adotada por quase todas as religiões, como cristianismo, islamismo, judaísmo e muitas outras.
Os deístas também acreditam numa inteligência sobrenatural, mas ela não se envolve de forma específica nas questões humanas ou em qualquer outra coisa. Esse Deus é responsável apenas por estabelecer as leis que governam o universo. Não faz a menor diferença se você ora, reza, presta homenagens ou qualquer coisa parecida. Os franco-maçons são deístas.
Os panteístas não acreditam em uma inteligência sobrenatural. Para eles Deus é uma palavra que funciona como sinônimo para a natureza e para a ordem que governa seu funcionamento. Alguns cientistas, de uma forma ou de outra, adotam essa posição.
Sendo assim, é possível notar que o panteísmo mais parece um ateísmo enfeitado. Já que o uso da palavra Deus não remete a um Deus pessoal ou a qualquer presença sobrenatural ou espiritual. Por isso não é errado simplificar e afirmar que Einstein de fato era ateu.
Portanto, quando Einstein fala Deus ou quando se refere a religião está querendo dizer algo diferente do que pode ser compreendido a princípio. Richard Dawkins comenta sobre isso:
"Einstein usou Deus num sentido puramente metafórico, poético. Assim como Stephen Hawking, e como a maioria dos físicos que ocasionalmente escorrega e cai na terminologia da metáfora religiosa. […] Carl Sagan disse bem: '[…] se por Deus se quer dizer o conjunto de leis físicas que governam o universo, então é claro que esse Deus existe. É um Deus emocionalmente insatisfatório […] não faz muito sentido rezar para a lei da gravidade'"
Os religiosos não deixaram de criticar também esse uso panteísta da palavra Deus. Veja o que disse o reverendo dr. Fulton J. Shee:
"[…] gostaria que os físicos evitassem usar a palavra Deus em seu sentido metafórico especial. O Deus metafórico ou panteísta dos físicos está a anos-luz de distância do Deus intervencionista, milagreiro, telepata, castigador de pecados, atendedor de preces da Bíblia, […] e do linguajar do dia-a-dia".
Então, seja você religioso ou não, caso venha a citar Einstein, é bom que verifique antes se de fato está colocando suas palavras adequadamente, e assim, não prolongar uma imagem errônea das opiniões "religiosas" do cientista.
Referências:
DAWKINS, Richard. Deus: um delírio. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
ISAACSON, Walter.Einstein: sua vida, seu universo. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
JAMMER, Max. Einstein e a religião. Rio de Janeiro: Contraponto, 2000.
Valeuuu!!! Bela resposta para meu trabalho ^^
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